quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Acorde





Ei, acorde!

Não prenda a respiração

Volte!

Volte logo!

Ainda não é o fim.

Não se deixe entregar num rompante.

Acorde logo!

Quanto mais tempo inerte

Menos vida em seu sangue.

Esteja de pé

Sempre de pé e olhar erguido.

Encare tudo com garra

Não tema o precipício

Não se deixe levar

Encare, encare o céu

E viva, não durma.

Não se separe de você.

Ainda encontrará o seu número.

Ei, acorde!

Esse pesadelo irá acabar.

Mesmo que distante pareça

Mesmo que o pesadelo não tenha fim

Mesmo que lágrimas insistam em rolar

Mesmo que desanime

E mesmo que desamparado sinta

Acorde!

Veja quão belo está o dia

Saia, passeie, divirta-se

Isso parece sem propósito?

Não! Ainda não é o fim.

Encare o céu

Há de se encontrar na imensidão do azul.

Ei, acorde!

Mais vida.

Mais sorriso.

Mais coragem.

E se o mundo insistir em desmoronar

Acorde.

Não tema o precipício.

A história só está começando.

Ainda há muito chão pra rodar.

Acorde!

E volte para si.

Volte para continuar e ser feliz.





Letícia Andreia

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Polidez





Discutivelmente superficial.


É nada.

É formal.

É virtude de etiqueta.

É virtude de aparato.

É ambígua:

esconde-se nela

o melhor e o pior.

Qualidade formal

necessária aos homens.

Não diga isso.

Não faça aquilo.

Não também ao acolá.

É feio.

É sujo.

É inadequado.

Resume-se à coleira humana.

Os cães não necessitam da polidez.

Os homens sim!

Pode parecer crime se não o for.

O homem que não é

encontra-se insensato e...

logo...

sozinho.

Agora entendo porque o cão

é o melhor amigo do homem.

Encontro em meus cães

tal comportamento polido.

Vejo, logo, que o cão é o espelho.

Espelho de seu dono.

É o não.

E o não.

E aqui não.

Aprende-se fácil.

Depois,

difícil é não sê-lo.







Letícia Andreia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Mais uma onda

Onda que anda e ronda

Onda que bate e vem

E vai e vem

Onda que tira onda

De onde a onda vem

Onda que me ronda

E anda rondando bem

Onda que de sete em sete

Eu conto a fartura que tem

Um dia falei da onda

Mas já não me lembro bem

Li hoje uma outra onda

E na pena outra onda vem.









Letícia Andreia

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Tentativas

Tentei escrever poemas profundos


Para pessoas profundas

De nada adiantou o não ser

O ser me corrompe a nada

E quanto mais leio poemas do mundo

Mais sórdida é minha poesia

Tentei escrever para quem lê

Algo que ainda não tinha sido lido

De nada adiantou os dedos em vão no teclado

A alma de poeta está incompleta

Vazia

( )

E as palavras permanecem banais

Com um despropósito qualquer

Tentei reorganizar antigas palavras

Para desgastá-las num sentido completo

Que missão dolorosa essa minha

O vazio dói quando toma conta a passagem do tempo.

Tentei escrever poemas descompromissados

Poemas chulos

Poemas de ais

Poemas de amor

Para pessoas do mundo

De nada adiantou tanto ser

A alma de poeta continua incompleta

Vazia

( )

E as palavras permanecem no sótão

Perdidas

Desconectadas

Tentei reorganizar histórias alheias

Silêncio profundo

Dói mais Dói mais quando olho o outro

Tentei cantar o cântico das almas

Tentei expor os meus sentimentos

Casulo. Nulo.





Letícia Andreia

Era...

E era a vida arcada de mimos


E era o estudo com seus compromissos

E era o amor em seu princípio

E era a ilusão montada a cavalo

E era a desilusão a chegar sorrateira

E era o momento o mais importante

E era o ser o ter que ser

E era o amanhã que chegava depressa

E era o silêncio que valia ouro

E era o jogo no fim da vida

E era a vida necessitada

E era a crise já não temida

E era o lar tão improvisado

E era o filho que nunca chegava

E era o blefe nas contas da vida

E era o ano que sempre virava

E era a água que não acabava

E era a casa desarrumada

E era o silêncio tão necessário

E era um a mais já falecido

E era um túmulo a ser visitado

E era a saudade amarrada no peito

E era uma história pra plantar na memória.





Letícia Andreia

,

Bagagem desnecessária para a morte:

Inveja


Casa

Carro

Sítio

Ilusão

Avareza

Dinheiro

Ira

Inimigos

Trabalho

Medo

Luxúria

Roupas

Estudos

Nome

E sobrenome

Preguiça

Telefone

E solidão

Passaporte

Internet

Soberba

Poder

Gula

Doces

Bebidas

Massas

Carnes

Dietas

E silêncio.





Letícia Andreia

Papelão

Das brincadeiras de criança

Se faz aquela mulher

Nua dos preconceitos

Carrega seu carro

Carregado de papelão

E ora

E roga

E chora

E ri

E faz a hora gotejar

Seus dia úteis

Inúteis

Pela cidade afora

Das brincadeiras de criança

Abandonada no jardim

Jaz em ti

No teu túmulo

Transeunte ou vagante?

Os sonhos de uma bela mulher

Que roga

Que ora

Que chora

Que ri

Que faz e desfaz

Os sonhos de criança

Moça-mulher

Agora és

Apenas o túmulo

De teus sonhos

Sonhos de qualquer um.





Letícia Andreia

Futeboléxico

Brigamiopia


Bebidagressividade

Ilusiotopia

Insultoterapia

Inimigosofia

Perdadetempismo

Decepcionismo

Contagiofutebolismo







Letícia Andeia

Natureza

A natureza parece negligente


Ela insiste em continuar vivendo

Por maior que seja o esforço

Do homem em destruí-la.



Ouço uma serra elétrica compondo o nada

Trabalha incansavelmente na alegria de derrubar

Os pássaros perdem suas moradias

E vagueiam sobre os homens.



Os troncos já não dizem mais o que estão fazendo

- não dão conta.



Mas ainda sabemos o que estamos

Fazendo com a natureza.



Quem vai recitar o amanhecer para mim

Depois que a festa acabar?





Letícia Andreia

Qual o preço?

O som dos pássaros pela manhã,


Não tem preço.



O som da chuva sem tragédia,

Não tem preço.



O calor do sol sem exagero,

Não tem preço.



A brisa leve sem poluição,

Não tem preço.



A natureza em cápsulas

Que encontramos nas farmácias

Para cura de muitos males

Do corpo e da alma...

Não tem preço.



O sorriso de um transeunte descompromissado,

Não tem preço.



O choro de uma criança ao nascer,

Não tem preço.



O brilho no olhar de um amante,

Não tem preço.



Não tem preço a vida que se leva

E o que se leva da vida é nada ao partir.





Letícia Andreia

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Cegueira

Seu Tonico estava cabisbaixo hoje
Disse que o olhar do cego estava mais triste
Não conseguiu vencer a morte no seu fio de sono
A dor se ser semente e exemplo doía mais que os outros dias
Do coito com a cegueira nasceu uma felicidade intocável
de ver o mundo com outros olhos - os olhos da alma -
E isso Seu Tonico não entendia ( ou não queria saber)
Do alto da sua perfeição Seu Tonico não compreendia
A complexidade daquele mundo tão simples - tão puro
Atou-se ao rosário de piedade e dedicou uma toada melancólica
Ele jamais entenderá que não só de olhares vive um homem
Mas de muitas palavras - mesmo que não ditas
Perguntei-me: - De quem afinal seria a cegueira?



Letícia Andreia

domingo, 25 de setembro de 2011

Brasil

Um Brasil brasileiro
Que encanta a todo estrangeiro
Que da terra saboreia tudo o que dá.
Um Brasil bem brasileiro
Com origens mil e povo hospitaleiro.
Um Brasil de aves raras e silvestres.
Exótico é o meu Brasil
Encanto e berço multicor
De regiões fartas de forte cultura
E comidas de muito sabor.
O Brasil que gosto me dá:
Frutas do Norte
Açaí, abricó, araçá,
Bacaba, bacuri, biribá,
Fruta-pão, carambola, cajá,
Graviola e ingá.
Jambo, jenipapo, mangaba,
Pinha, sapoti, pitomba e piquiá.
Tamarindo, tucumã e uxi.
Do Sul o churrasco saboroso
Ganha em todo o Brasil.
Das matas de araucárias
A imbuia, a erva-mate e
O pinheiro-do-paraná.
Alemães, italianos, poloneses e ucranianos
Região mais forte que esta
No Brasil não há.
Região Sudeste:
Orgulho-me de ser de cá.
Pão de queijo – leite – café
Pro lanche das cinco melhor não dá.
No Rio de Janeiro nossas praias e mares
Cartão postal do Brasil.
No interior, os mares de montanhas
Das nossas Minas Gerais –
Terra do ouro e povo desconfiado.
Em Sampa as melhores indústrias
E muito trabalho.
Na Região Centro-Oeste
Mesa farta em pesca.
As cores, a fauna e a flora do Pantanal
Não há nada igual.
Carnes saborosas:
Catítu, cobra e porco do mato,
Capivara, paca e veado.
Terra de danças, violeiros e viola.
Do Nordeste gosto bem
Muito coco, samba de roda, baião,
Forró, xote e chachado.
Literatura de cordel lá é forte
E os artistas de lá
No Brasil têm muita sorte.
Chapada Diamantina e do Araripe
Grande sertão e seca também há lá.
Brasil
Bem Brasil brasileiro
Venha também estrangeiro
Saborear tudo que nossa terra dá.





Letícia Andreia

Solidão

A solidão me consome aos poucos


Já não tenho assunto para os outros

Estou vazia das mesmices

A poesia dominou-me

E meus lábios não se movem

As palavras estão gastas – desbotadas.

Rasgadas pelo uso incontínuo do lirismo

Tudo isso parece tão igual

Desfaço meus versos para repensá-los

Nada obtenho – escassez do pensamento poético

E a solidão me consome

A cada dia mais só

Mais pó

Mais eu.







Letícia Andreia

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Rotina das férias

Verticalizei as sete e quarenta e cinco

Nem mais
Nem menos
Exatos.
Impressionante!
A poesia dos pássaros
Entoava o canto melancólico...
O sol ainda não saíra.
E eu... Já de pé
A trocar as fraldas da casa.
O sol espreguiçava seus raios
Pelos vazios das nuvens chumbo.
O anjo entregava-se ao sono profundo
No leito de amor.
E nem mesmo o tilintar do martelo
Na construção vizinha
O fazia desintoxicar-se do ébrio sono.
A primeira fralda a ser trocada
Foi a do canil.
As cadelas corriam para o portão
A dar seu bom dia à rua.
Os homens caminhavam automaticamente
Para suas rotinas...
E eu, agonizava poesia
Entre um balde de água e outro
Pelo lápis e retalho de papel.
Os pardais insistiam em dar
Bom dia ao preguiçoso sol.
As cadelas mal se importavam
Com o mundo cão que lavrava lá fora.
E brincavam...
E enamoravam a rua...
E sentiam-se imensamente felizes.
Um galo atrasado canta.
As aves realmente se importam
E imploram pelos raios de sol.
Duas horas mais tarde...
Fraldas da casa trocadas
Cadelas limpas
E alimentadas.
É hora do almoço.
Desenho o cheiro da comida mineira
E toco em frente a rotina das férias.

Letícia Andreia

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

.

Meus olhos

nos teus olhos
encontram:
a sabedoria
o amigo
o amante.
Meus braços
nos teus abraços
encerram:
o desejo
o carinho
o apego.
Meu mundo
no teu mundo
entrelaça:
a maturidade
a juventude
a união.


Letícia Andreia

Poucas palavras

O guardador de águas

surpreendeu-me sentada à beira do rio.
Indagou à margem
qual era a minha sina.
O silêncio cristalizou o segundo.
Compreendeu, então,
a dor da solidão.


Letícia Andreia

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Lembrança

Lembrança é madrasta comigo

Carrega mato de memória adentro
Criança não deseja entrar
Memória deu empurrão
Pro eu perder na mata do passado
Presente ficou perdido
Sem chão para pisar
Não gosto de lembranças
Elas são atrevidas comigo
Entram sem avisar
Bagunçam a casa
E, depois...
Depois?
Começa tudo outra vez.


Letícia Andreia

Incontinência poética




Incontinência poética.
- disse isso ao acaso.

Doutor, esse poeta sofre
De uma grave incontinência poética.
Sua mente febril delira
E a necessidade de liberar poesia
Emana pelos poros da caneta
E suja o papel
- que não reclama.
- É grave – diz o doutor – Não há
O que fazer senão deixá-lo escrever
Escrever escrever escrever
Sua incurável incontinência poética.

Letícia Andreia

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Murmúrio





Ouça o murmúrio surdo
De um coração calado.
É valente!
Quem não o é
Quando fala o coração.
Um covarde desertou
Seu coração para verme.
Que pena!
Um covarde a mais na vida frustrada.
Um guerreiro amordaçou seus ouvidos
Para que não ouvisse a voz da razão.
Esse é feliz!

Letícia Andreia

Crepúsculo



Espero ardentemente o crepúsculo
Da minha vida.
Foi uma vida inteira que não tive,
Um vasto campo a ganhar,
Mas as horas, traiçoeiras,
Faltaram-me no momento “H”.
Agora? O que me resta?
Lembranças...
Nostalgias...
Tudo apagado.
Até mesmo o afago ficou no sótão
-quieto, apagado sem me encontrar.
De onde venho?
Onde estou?
O que me resta?
Para onde vou?
Fluir levemente qual bruma no lago?
Oh!, não, não faça de minha alma
Um mundo tão vasto
Que não se pode alcançar.
Quero viver.
Deixe-me viver.
Oh! Vírus, ingrato, fúnebre
Que enlouquece a humanidade.
Rastreio o sótão e... nada.
Nada encontro,
Nada consigo.
Só o sopro de minha ardente alma
Num grito brando de desafio.
Oh! Vida, onde andarás?
Depois da morte.
Não!
“O show deve continuar!”

Letícia Andreia

Equipe


admiro o trabalho em equipe
por isso admiro as formigas
fico na janela da cozinha
observando como elas se equilibram
no fio do poste
atravessam de uma árvore para outra por ele
costumam andar em grupo e,
quando uma vai e outro grupo vem,
tiram a sorte no par ou ímpar
quem passa por cima e quem passa por baixo do fio
as três passaram por baixo
e aquela - solitária - continuou
é assim a todo momento
o dia inteiro
formiga vai...
...formigas vêm
dizem que fazem morada no oco das árvores
fiquei pensando naquelas que cuidam do lar.

coitadas.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ainda não terminado:

Toc Toc Toc...
Peço permissão para parafrasear...
esse amor incorrigível
tão assim, romântico,
perdido nas ilusões ...
é o fogo ardido que não vemos
é a chaga aberta a nos martirizar
é a dor contente em amar sem ser
é a migalha do pão
ou o toque da mão
um sorriso meio torto, que seja,
mas é o amor...mesmo incorrigível...
e ainda que eu desenrolasse essa língua
e os nós desse amor eu desatasse
ah..eu nada entenderia
mesmo que bíblico
mesmo que poético
mesmo que amor...
é o amor: "fogo que arde sem se ver"...
mais contrario a si, amor,
é o coração que o sente.



Letícia Andreia

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Hoje, meu amigo Gilberto Vaz de Melo, postou-me algo intrigante.

Nada que eu não pense todos os dias...mas jamais alguém havia me dito meu próprio pensamento.
Vejam:
“Todos esses que aí estão atravancando “seu caminho”, eles passarão...
“você”, passarinho!!! (Mário Quintana)”
Inevitavelmente...o diálogo surgiu...
E num toque intertextual saiu do sótão o passarinho...




Eu, passarinho,
Da torre alta do meu ninho
Observo, eles, passarando
E eu tão sempre passarinho.
Cá do alto digo que estou
Não pela grandeza que julgo possuir
Mas sim da minha pequenez
Pequenez de passarinho.
E é só do alto
Do bem alto do meu ninho
Que vejo o quanto eles passarão
Porque eu apenas passarinho.
Não que estejam
Atravancando meu caminho
Não, porque somente eu
Euzinho
Do meu pequeno passarinho
Atravanco meu próprio caminho
Pois da minha inocência perdida
Quando distante estou do meu ninho.
Enquanto eles, passarando,
Querendo meu destruir meu quente ninho
Não sabem as penas, que duras foram
Pra fazer meu próprio ninho.
Eles, que passarando,
Desejosos do meu humilde ninho
Tramam injúrias impróprias
Da minha curta vida de passarinho.
E quanto mais passarão passarando
Cuidando de eu passarinho
Edifico e cresço
Na mais alta árvore
O meu aconchegante ninho.




Letícia Andreia
Zum zum zum
Zum zum zum
Tá no mio do nada
Atalho registrado em ata
Zum zum zum
Tá no cheio
E no meio do peito
Tum Tum Tum
Tá no batuque da caixa de bronze
Tá no passo
No passo
No passo
Zum Tum zum
Tum zum Tum
O quebra silêncio se envergonhou
De nunca ter sido
O queixo do queixo do mato
Abre a mata e o coração
No zun zum zum
Perdi-me da razão
No Tum Tum Tum
Anda que anda o coração
E o romance que não há
O coração não está
Emoção por vir a chegar
Tum Tum Tum
Zum zumzum
Tá no meio do nada.

Letícia Andreia

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Foram três ais.

Ai! Ai! Ai!
No ai primeiro,
Viu-se o homem ainda menino.
Recém saído de suas fraldas.
Engatinhando
Depois andando
E então falando.
Sapecando suas peraltices pelos quatro cantos da terra.
No segundo ai,
O homem já se desnudara para o mundo
E as coisas da terra
Viram-se descobertas
As peraltices ganharam novo prumo
E ai daquele que em seu caminho travasse línguas.
De tudo era um desbravador
De todos sentia-se superior
Conquistou bens
Realizou sonhos
Plantou uma árvore
Plantou um filho
Plantou um livro.
Sentou-se na plenitude do saber
Sentiu-se o dono das verdades
Sentiu-se o encantador das mentiras.
No ai terceiro,
Gastou tudo o que tinha,
Perdeu seus bens mais valiosos:
O amor
Os amigos
A família.
Sentiu-se só
Desamparado
Quis retroceder
Mas o tempo
Ai!
O tempo não para
Dilacera em verrugas a alma
E desse ai,
Tornou-se maduro
Sentiu-se pronto.
E já era hora
Não haveria tempo pra mais um ai
De quando em quando
As lembranças vinhas lhe povoar
Derramou lágrimas pelo tempo perdido.
Nesse ai terceiro,
Aprendeu o verdadeiro valor das pessoas.
E ai que chegou a hora do juízo final.
Dos três ais
Guardou as experiências
De nada terreno levou
E ai que se arrependesse de tudo
E ai que virasse humano

E ai que partiu sem pranto.


 
Letícia  Andreia

domingo, 27 de setembro de 2009

Fui ao céu falar com Deus
São Pedro não me deixou entrar
Chamou Irene pra me mandar embora
Irene me reconheceu
Deu um riso largo
Mandou que eu entrasse pela porta dos fundos
Entrei sem fazer barulho.


Letícia Andreia

Quero ser, agora,
O rato de esgoto,
Grande, gordo, dentuço...
Que ronda alegre
Meu triste fim.
No túmulo jaz
Minha história.
E a vida que aqui vivi.
Ficou o exemplo do que não fui.
Sou apenas o espírito que ronda,
Ronda, ronda e rói.
O rato do túmulo...
Sozinho,
Acompanhando os vermes.
Dilacerantes na carne morta.
Mas a alma,
Que jaz alma,
Agora liberta procura a paz.


Espírito.


Letícia Andreia

Para Marília Abduani



Para grande amiga, Marília Abduani.







Marília, Marília
É um som
Uma certa melodia
É pura poesia!
Marília,
Que do sonho conduz à realidade
E da realidade ao sonho...
Que lágrimas não vejo
E se existem, são diamantes.
Qual dor é a sua?
Ou onde ela se esconde?
Que não posso senti-la.
Apenas a poesia!
Marília, Marília...
Daí não sei se finge ou finjo
Se corre ou fujo
Se perto ou longe...
Quero ficar de você...
O eco da poetisa,
Por onde devo procurar?
Nem sei se quero encontrar...
Você, Marília,
Que não é de Dirceu,
Que não é Maria,
Mas, simplesmente,
Marília!
Simplesmente, poesia!
E agora, Marília?
E agora?
Que atrai e se espelha...
Se espalha e se entrega...
Marília, e agora?
Por quantas anda?
Onde está?
Tão perto e tão longe...
Quais mãos a leram?
Quais olhos a tocaram?
Suas dores, (que não há)
São as minhas alegrias
São as deles também.
É poeta, poetisa, então finge
E ao fingir sente
Este vale de lágrimas.
Se é bíblica, não sei.
Se é literária, não sei.
Se é profunda, eu sei.
Ou profana? Jamais!
Oh!, Marília,
Que pelo seu mar
Eu me desfaço – ilha.
Mar – ilha!
Mar...ilha!
Ilha...Mar!
Marília!
Eu viro e (des) viro
Eu faço e (des) farço (não des-faço)
Mas você, com seu mar,
Suas ondas a me golpear...
Minha farsa se (diz) farsa
E num instante de um traço
Nasce uma breve melodia:
Marília!
É mar...
Se é ilha...
É o fim da trilha!
É pura!
É bela!
É mar!
Não é ilha!
Apenas Marília!



Letícia Andreia 27/08/2003
Para o amigo poeta,  Gilberto


Muito bem, seu réu poeta,

teu repouso acorda meus versos

tua ilusão é minha doce mentira

teu amor é meu gozo prfundo

teu sussurro, meu grito mudo
teu erro, minha traição poética
teu sonho embala meus pensamentos
teu soluço, meu nó na garganta
tua observação é meu olho esquerdo
teu descuido, meu único pecado
ao declamares, embriago-me em teus versos
teu sofrimento, simplesmente,
réu poeta, é minha paixão.


Letícia Andréia

Um tango solto rola no ar


Ao imperador clamo a bailar

A nova busca se dispersou

O amor na música se apresentou

Baila Baila comigo

Dá-me o teu calor

Neste bailar colorido

Um tango a mais não fará mal algum

Um violino chama instintivamente

O bandoneón conduz ao ritmo

Pode até mesmo a gaita

Penetrar a alma

No compasso do coração

O bate bate

O bate bate do baixo

Faz vibrar a emoção

E venha comigo bailar

Venga...venga... ouça o violino

Yo me voy

Só mais um tango

Nesta vida quero este gosto

Baila comigo mais um tango

Não me importa que seja o último

Tã Tã Tã ....taaaarãrãrã

Tã Tã Tã ....taaaarãrãrã

Argentina, só mais um tango

Tã Tã Tã rã tã Tã Tã Tã rã tã

Tã Tã Tã rã tã Tã Tã Tã rã tã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Mesmo que não voltes mais, imperador

Baila comigo só mais um tango

Mais este tango

Tã Tã Tã ....taaaarã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Argentina, só mais um tango

Tã Tã Tã rã tã Tã Tã Tã rã tã

Tã Tã Tã rã tã Tã Tã Tã rã tã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Relembra o olhar que fuzilaste

O rodopiar do bailar no salão

É só mais um tango argentino

Mis manos locas

No se puedo

Tocar con ellas el cielo

Tã Tã Tã ....taaaarã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Cómo se equivocaron nosotros

Baila comigo

Pero yo quiero que bailemos este tango

Bien juntitos

Um tango solto

Mas envolto em nossos cariños

Tã Tã Tã ....taaaarã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Argentina, só mais um tango

Tã Tã Tã rã tã Tã Tã Tã rã tã

Tã Tã Tã rã tã Tã Tã Tã rã tã

Tã Tã Tã ....taaaarã

Tã Tã Tã ....taaaarã



Letícia Andreia

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amigo poeta,

quão grande é teu poema
quão distante estás de mim
quão perto nossos poemas se cruzam
quão belo o jogo das palavras......
não quero competir contigo...
ensina-me a meiguice de tuas palavras...
saltitantes no papel...
qual tábula rasa...
que nada ....
está mais para um tecido.


Letícia Andreia
Dizem-me louca
Uma loucura gostosa de ser
Um jeito meio muleca
Meio travesso no meio de tudo
No meio do nada
Um jeito feliz de ser louca
Uma loucura feliz de viver a vida...

Falam-me louca
De não entenderem o porquê
O porquê do meu jeito gostoso de ser...

Pensam-me louca
louca
louca
louca
Mas eu digo que ainda sou pouca
Popucas palavras...
Poucos vinhos...
Poucos rios...
Poucas estradas...
Poucos ninhos...

Acreditam-me louca
(doida varrida?)
Não posso crer!

Quão diferentes formas hei de ser?

Quando uns dizem da minha loucura
Sinto o desprezo que têm por mim.

Quando outros dizem da minha loucura
Lamento a inveja que sentem por mim.

Mas alguns...
bem poucos...
Ah! Alguns bem especiais...
Quando dizem, falam, pensam, acreditam...que sou louca
Fazem um carinho gostoso no ego.
É um jeito irregular
De se dizerem amigos
De sentirem orgulho
De se lembrarem
De valorizarem...

Só não posso permitir
O equívoco da loucura de ser poeta
Pois as palavras são muitas
Ecos profundos...
E eu?
Apenas pouca...
Louca!


Letícia Andreia

Para um conterrâneo que tenho tanto orgulho em chamar de amigo.

Canta e encanta com teu canto
Ó pássaro sem ninho.
Onde pousas com tua voz?
Onde encontras teu verdadeiro eu?
Quem diria...
que tua voz um dia...
que tua bela melodia...
silenciaria presa na garganta...
com teu canto preso... no oco das ações?
Jamais!
Solta teu canto...
a qualquer canto.
Qual canto a ti mais encanta?
Canta com teu canto o broto da vida.
Aquela vida perdida...
Os dias que não voltam mais...
Canta com teu canto...
o encanto que há na tua terra...
bela e serena.
Tua raiz...
Ó amante da guitarra
Teu lirismo traz alegria
Tuas noites não menos amenas...
nem menos insanas...
Teus dias mais risonhos..
Canta...
mas não senta a pua.
Nem vive apenas a sonhar.
Solta teu canto.
Pois teu canto a mim encanta
e pra ti eu faço um canto,
mas não tem o mesmo encanto
que os versos teus...
Tuas mãos na guitarra...
afrouxam o nó da garganta
e desliza a melodia pela lacuna do tempo.
Canta e encanta com teu canto mágico.
O mais puro...
O amável...
O sensível.
O mais belo canto.

Letícia Andreia

quinta-feira, 24 de setembro de 2009


Estou predisposta para o ato de escrever.

Momentaneamente a invasão da palavras

venceram meu tempo,

pouco a pouco...

e cá estou.

Transeunte relápsa entre as tumultuadas avenidas das palavras.

Abro os olhos e vejo uma geração dispersa.

Não é perversa - mas seus valores...

se corrompem.

Estou predisposta

E essa predisposição niquila qualquer trabalho poético.

O lirismo torna-se pendente,

o ócio torna-se o ápice.

Cerro os olhos

e o que vejo é a penunbra do passado.

Sua sombra nostálgica.

O pouso da libélula na água...

O círculo me centraliza para musgo.

Eu oca.

E nada faço contra.

Pois estou predisposta para o ato de desescrever.


Letícia Andreia

Homem - Semelhança:

Imagem!

Simbologia!

Dominação!

Homem versus consigo próprio.

Sistemas...

Simbologia.

Real!

Imediato!

Conjunto de abstrações?

- Coração humano!

Real - indisprezível - realigade.

Da mitologia:

Brama

Ícaro e Dédalo

e outros.

A religião.

A fé.

O pó.

O nó.

No princípio era o verbo.

No princípio era Deus.

No intermédio:

nada do que foi se fez.

Que se faça a luz.

Nasce o homem.

Homem:

palavra diviva

imagem e semelhança.

Materialidade!

Abstração?


"É através da materialidade que se apreende a abstração."



Letícia Andréia



terça-feira, 15 de setembro de 2009


Viveu a vida como se vivesse um filme de aventuras.
Poucas horas de sono...
Pouco trabalho...
Pouco dinheiro...
Muitos colegas...
Alguns amigos...
Outras mulheres...
Só no vazio ficava a ver o bonde passar.
Se doente?
- não lembra-se desta passagem.
Viveu a vida
Nasceu a idade
Desvendou o mundo
Vendou a mocidade
Depois de conversar consigo próprio
O exílio!
A solidão!
A fera!
A fraqueza!
A morte!
Não foi para o céu
Nem para o inferno
Nem ficou vagando no limbo.
Diz-se que perdera,
Na Terra, o passaporte.


Letícia Andreia

Há poemas e há poemas.
Palavras acercam meus pensamentos
E eu torto
Quase morto
Sórdido e inerte
Ao vai e vem das palavras
que rodopiam
Incansavelmente
Inerentes ao percurso lento
Da pena ao papel...
Palavras
pa – la – vras!
Onde vou que não as tenho?
Pelo sim
Pelo não...
Enlouquecem a razão
E das palavras
Arranco-lhes o sumo.
O forte
O norte.
Poesia é uma doença contagiosa.
E não tem cura.


Letícia Andreia


Santiago - Chile...Praça Central.
Eis aí os filhos do meu ócio!
Eis que doentes são à procura de ti, leitor.
De mais a mais não adianta fugir.
Passar teus olhos sedentos de mim, a poesia.
Viver meus passos rompidos em letras,
Em pontos,
Em vírgulas,
Em reticências...
Sê reticente não lhe pertence, leitor,
Mas a mim, sim.
De todas estarei atenta
Mas não faças de mim só o puro lamento.
Eis aí os filhos do meu ócio...
Eis que a cura se encontra em ti, leitor.


Letícia Andreia

sexta-feira, 11 de setembro de 2009


Afago poético

Ó amigo,
Dedico a ti
Um pouco de companhia
Um afago ligeiro
Para acariciar teu dia
E quem sabe
O teu medo esvaeça de ti.

Conta teus segredos
E não deixe que hiberne
Teus mais doces sonhos.

Mesmo que lá na caverna
Dos teus mais profundos medos
Ecoe o sussurro
Do passado a passos fortes...
Que não seja jamais a prisão
Do teu mais valioso coração.

Da noite escura...
Das almas perdidas...
Da nossa loucura...
Medos pequenos
Da infância perdida
Que assombra o sótão
Com sua nostálgica melodia.
Sim e não.
Que não seja em vão
Tamanha tortura
Pra essa loucura
De sentir medo
Do teu medo cavernal.

Quais são os gigantes?
Moinhos de vento?
Serias ao mar?
Qual urso polaco?
Qual é teu segredo(?),
Amigo lusitano,
Causador de tanto dano
Em tua alma poética?

A quem se perde, presente amigo,
Senão a augusta chama da inspiração?


Letícia Andreia